O CAD foi das piores coisas que aconteceu aos projetistas nas últimas décadas.
Como assim?!, pergunta o leitor.
Assim mesmo!, digo eu!
O CAD deu cabo dos projetistas, do seu papel na indústria e da sua atividade enquanto negócio/profissão. Claro está que, ao dar cabo de tudo isto, teve também consequências graves para a indústria como um todo.
Curiosamente, é na tomada de consciência deste problema que encontramos a mudança que a indústria verdadeiramente precisa.
Vamos lá então por partes.
A nobre arte de projetar
Projetar, seja arquitetura, engenharias ou o que for, passa por dois grandes grupos de atividades, que se complementam e correm em simultâneo:
· Conceber
· Desenhar
Conceber é imaginar. Experimentar ideias. Pensar. Pensar muito. Discutir. Experimentar outra vez. Explorar opções e alternativas. Questionar imenso e ter dúvidas.
Conceber implica criar algo como resposta a um problema. E esse algo, por definição, não existia antes. Tem de ser encontrado.
Desenhar é isso mesmo - passar para o papel aquilo que se concebeu.
A velocidade da concepção
Conceber não é uma linha a direito, é um processo interativo e iterativo.
E isso precisa de tempo.
Podemos conceber mais depressa ou mais devagar, mas acelerar terá sempre impacto no resultado da concepção. Se acelerarmos muito o impacto será muito elevado.
A velocidade do desenho
Já o desenho é menos sensível à velocidade. É uma atividade mais linear, que tem princípio, meio e fim e assenta num processo mais estruturado que aguenta relativamente bem a pressão do tempo.
Podemos acelerar o desenho que o impacto no projeto não será tão significativo.
No tempo do estirador...
Quando os projetos se desenhavam no estirador - com réguas, esquadros, compassos e canetas de várias espessuras - a concepção e o desenho viviam de forma relativamente harmoniosa.
É fácil olhar para trás e pintar o mundo de antanho em tons de rosa - naquele tempo era tudo melhor... - não quero cair nesse erro. Havia muita coisa que não funcionava tão bem, a capacidade de produção era muito menor, tudo era muito mais caro e consumia imensos recursos, mas uma coisa é certa: a velocidade a que se desenhava servia bem o processo de concepção.
Eis que chega o CAD
Algures nos anos 90 o CAD entra em força nos ateliers e gabinetes de projeto.
Agora todos conseguem desenhar mais depressa, muito mais depressa -
conseguimos desenhar um edifício de 20 andares num par de semanas e um hotel ou escritório em menos de nada.
E as alterações? Simples. Já estava desenhado, mas refaz-se tudo num ápice. Mirror, copy/paste, offset e muitos outros estrangeirismos são utilizados no dia-a-dia dos gabinetes de projeto para acelerar e desenhar mais depressa.
Então e a concepção?!
Pois é, com o CAD desenhamos muito mais depressa, mas a velocidade de concepção é mais ou menos a mesma.
A concepção é feita por humanos, precisa do tempo da criatividade, da experimentação, de remoer ideias e procurar soluções.
Imaginar o melhor jogo de cores para uma sala, ou o melhor modelo de cálculo para uma estrutura, ou a melhor forma de distribuir ar num edifício ou como compatibilizar tudo isto num projeto coerente e funcional precisa de tempo. O tal tempo da concepção, que não é facilmente reduzido.
O CAD permite desenhar muito mais depressa, mas a velocidade da concepção é a mesma.
Mas afinal, porque é que o CAD prejudicou os projetos e projetistas?
Com a entrada do CAD, a indústria começou a encarar o desenvolvimento dos projetos com base na velocidade do desenho, esquecendo-se da velocidade da concepção.
Mas, tal como uma corrente não pode ser mais forte do que o seu elo mais fraco, um processo não pode andar mais depressa do que a sua atividade mais lenta.
Planeia-se, contratam-se projetos e os projetistas apresentam propostas como se o projeto pudesse andar à velocidade do desenho, quando o ritmo deveria ser o da concepção.
E com isto projeta-se pior. Há cada vez menos tempo para pensar nas soluções, para conhecer verdadeiramente o cliente e os seus requisitos, para coordenar e compatibilizar, para avaliar os custos das soluções que se estão a definir e para uma miríade de coisas essenciais a um bom projeto.
O CAD foi das piores coisas que aconteceu aos projetistas (e aos projetos) pois a indústria opera como se fosse possível desenvolver um projeto à velocidade do desenho, esquecendo-se que a concepção precisa de tempo e é seriamente prejudicada pela aceleração.
Resulta daqui que os projetistas têm menos tempo, menos recursos, menos condições para desenvolver bons projetos. E quando um projeto não é bom, todos sofrem as consequências.
Artigo republicado do Linked In e site Alphalink.
